21 de maio de 2015

Maria Daniela, a Campónia. (Sorte ou Azar?)

Não sei até que ponto é que vocês têm interesse em conhecer-me a este nível mas vou arriscar.
Sem começar com o "Era uma vez" e tentando evitar clichés, penso que quem me tem vindo a acompanhar já percebeu que eu sou alentejana.

Como nós costumamos dizer: Alentejana MAS do Litoral! Bem a sudoeste, aproveito para fazer publicidade a uma zona fantástica que preserva muito a sua identidade, os seus valores, aquilo que é. (Coisa que infelizmente já não se pode dizer do meu querido e amado Algarve.)
Tive o privilégio de nascer e crescer perto de praias fantásticas, de águas geladas de fazer doer os ossos, de pessoas fantásticas que até partilhariam a alma se pudessem, e do campo.


Aprendi que o leite vem da vaca (e não do pacote) mesmo antes de aprender a falar. Distingo raças de patos e sei qual a melhor altura do ano para se semear alhos. Ando de galochas sempre que for necessário, carrego baldes de água para dar de beber aos animais mas ainda tenho receio de galinhas.


Cresci rodeada de tanta coisa boa. Sou alérgica a quase tudo mas nada me tira do campo.
Às vezes acho que Deus (ou algo semelhante, se existir) demorou mais tempo comigo. Deu-me umas coxas grandes mas abençoou-me com esta vida.
Não sou melhor que ninguém mas encho o peito para dizer que tive uma educação (em casa) fenomenal. Desde pequena com liberdade para fazer, para errar, para controlar o meu próprio percurso escolar, para sair, para comprar. Lá em casa sempre houve orientação mas nunca autoridade. Lá em casa sempre estivemos os três em pé de igualdade. Eu, como filha, com os mesmos direitos e deveres que os meus pais. O respeito que lhes tenho é difícil de expressar. É imenso.
São pessoas modestas. Não têm melhor educação os filhos dos médicos e dos arquitetos. De todo!
Jurei que lhe desamparava a loja assim que pudesse. Quero-os felizes e com direito ao seu merecido descanso. Sem encargos. Vim para o Algarve mas o coração e a pronúncia é de lá.


Ser campónio e viver na cidade é ser mais completo. É conhecer dois mundos. Que sorte!
Vivo em cidades há 5 anos mas não deixo que me mudem, que me tornem citadina (no conceito romântico da palavra). Aproveito o que de melhor se tem aqui, sem dúvida a acessibilidade e a diversidade. Confesso que já se torna difícil imaginar-me a viver fora de um meio urbano. Mas a minha sanidade mental só recupera no campo. Nos pássaros a cantar à janela, nos vizinhos a trazer morangos, tomates ou limões das suas hortas, no palpar, na roupa suja de pó, no silêncio.
Ainda vivia há meses em Faro (para estudar, do alto dos meus 18 anos) e já escrevia:

«(...) Porque aqui ninguém tem nada, nem um refúgio onde a alma repouse calada. (...)»

A opinião mudou um bocadinho. Aqui as pessoas têm muito. Mas há algo de muito precioso que lhes falta naquilo que os rodeia: o conceito de genuino, de virgem, de despretensioso.

Amo muito aquilo que tenho e que contruí.
Se não tivermos orgulho naquilo que somos, pouco mais nos restará :)

Um beijo,
MariaDaniela

2 comentários:

  1. Confesso que sempre vivi na cidade, embora tenha passado férias (em miúda) no campo. Apesar de adorar animais e tudo o que escreveste, nunca gostei de lá passar muito tempo seguido. Acho que sou mesmo uma mulher da cidade, da agitação, do barulho...mas volta e meia também gosto de parar :)
    E são todas estas experiências que vamos tendo, que nos vão tornando pessoas mais ricas. A tua é enorme :)

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    1. Eu compreendo-te perfeitamente! Gosto muito de viver perto de tudo, da confusão. A questão é que me sinto como se tivesse duas vidas. No Alentejo permito-me ser desleixada, combinar laranja com vermelho, soltar a pronúncia. Aqui é necessária alguma contenção e sofisticação de que também gosto muito!! :)
      Um beijinho!

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