18 de abril de 2016

Ser a melhor amiga dos pais

Esta semana voltei ao texto corrido para primeira publicação. Não que os outros posts não tenham demasiada converseta mas vocês que passam por aqui sabem que há sempre espaço para um bocadinho de prosa sobre nada. 
Deixem-me só dizer que isto não passará de uma introspectiva parva, não tenham ilusões.

Fora a fase da adolescência em que tudo é uma seca dos diabos, acho que sempre me dei muito bem com os meus pais. Com o passar dos anos percebi que não haveria ninguém no mundo a aconselhar-me como eles, a querer o meu bem e a preparar-me para o mal. 
Desde que saí de casa para ir para a faculdade que os laços se estreitaram. A minha mãe é o meu maior apoio e a melhor ouvinte, o meu pai é o ponto de abrigo, a segurança. 
À sua maneira sempre fizeram tudo por mim, da mesma forma que me deram os "não's", os castigos e os raspanetes. Crescer bem é ter este equilíbrio do bom e do menos bom. Eu acho que tive uma muito boa educação e é nessa crença que assento a minha personalidade todos os dias. Não posso simplesmente ser uma besta quando os meus pais fizeram um tão bom trabalho.

Hoje, sinto que chega a hora de retribuir. Porque sei o esforço e a dedicação que foi necessária para que eu não me deslumbrasse, não caísse ou simplesmente não desistisse. Herdei-lhes a vontade de dar mas o cuidado de não dar tudo. Aprendi a respeitar os mais velhos em todas as ocasiões e a tentar todos os dias merecer o respeito deles. Entendi que os outros não têm de sofrer consequências se eu estou num dia mau. Ensinaram-me que é preciso abdicar de cem cristais se quisermos ter o diamante. Sem esforço e bravura, ficará sempre tudo como está. 

Por isso, hoje sou a melhor filha que posso e sei. Visito-os com muita regularidade (admito que me deixo apaixonar pela calma da aldeia a cada fim de semana), levo-lhes mimos e esmago-os com carinho. Hoje, que não preciso, sou mais eu a ajudá-los a eles. Seja numa encomenda de bacalhau ou a despachar papelada junto do Instituto Nacional de Sabe-se-lá-o-quê. Perco horas a resolver coisinhas simples e ao telefone a desfiar assuntos leves. Por eles serem tão agradecidos, parece que é sempre pouco e pequeno aquilo que lhes posso dar. 
Há poucas coisas que se equiparem ao "Ah, minha rica filha!" depois de eu comunicar que determinada situação foi resolvida.
Adoram os queijos da serra que seguem do Algarve e as inovações que ainda não chegaram ao monte. O pai já se justifica com gosto, perante o meu olhar reprovador. "Hoje posso comer favas com chouriço porque bebi do teu leite magro sem saborzinho nenhum de manhã. Foi o combinado, não foi?"
Ele é o meu melhor mecânico e não dispensa o meu ouvido concentrado quando em causa está o funcionamento de um motor qualquer. Eu sou a arquiteta e crítica das obras dele. Ela é a melhor costureira e também quem me estraga roupa com pingos de lixívia. Eu ofereço-lhe flores, camisolas e as malas que ela muito subtilmente me pede emprestadas para sempre.

Sei que nem toda a gente terá uma dívida de gratidão e amor aos pais como a minha. Bem sei que cada casa é um caso. Mas cada relação tem o poder de se (des)construir de acordo com a forma como trabalhamos para ela. Os meus pais têm sido fulcrais nos momentos difíceis, o que nos fortalece e me torna mais mimada. Não há bela sem senão. Mas não mudava nada.
Sei que serão as pessoas mais importantes do mundo, até que o mundo receba um pequeno ser com o meu ADN. Caminharemos sempre juntos, porque eu acredito em amores incondicionais.





MariaDaniela

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