2 de junho de 2016

Ai que fomos todos Charlie durante uns dias!




Somos uma cambada de idiotas. Acho que é ponto assente. Um bando de seres superiores com uma costelinha (ou o lado esquerdo do corpo) de Hitler que pode julgar tudo o que não percebe e tudo o que não gosta. Como nunca vimos Deus então achamos que possivelmente somos nós. É como dizia a minha trisavó «Não estou a dizer que sou a Mulher Maravilha, mas nunca me viram fechada numa sala com ela.»
Somos moralmente superiores essencialmente na internet. Andamos a vaguear tipo porcos da índia sorrateiros e mal dão por nós estamos a protagonizar a cena de um elefante cego e coxo numa lojinha de cristais. Partimos tudo com a nossa tromba de integridade e valores. Não.


A coisa mais batida é o "Não sei brinca com esses assuntos!" nas páginas de humor. Normalmente seguido por algo moralmente superior como "Só alguém sem noção, sem amigos, sem vida própria e que deve ter sido um aborto mal feito é que é capaz de dizer isto!". Classe.
Aí há tempos o Sinel de Cordes disse que se o denunciassem por causa de um piropo violava a pessoa em questão. Fiquei super ofendida. Passei-me da marmita e chamei-lhe mentalmente todos os nomes que nunca chamarei ao meu rico pai. Depois desci à terra e voltei a calçar o chinelo.
Já me fartei de rir quando ele fez piadas com gordas, com cegos, com coxos, com deficientes, com freiras, com gays. (Sim, sei que tenho o inferno garantido, não precisam de me avisar.) Ia estar a ser tão hipócrita se decidisse destilar veneno na página dele quando o assunto agora me tocava mas já me roubou tantas gargalhadas. Se o gajo é um otário?! Claro, há poucos àquele nível.

A questão é a porra da liberdade de expressão e os seus limites que são tão relativos quanto o conceito de "gaja boa". E as frases feitas como "a tua acaba onde começa a minha", "a tua não é maior do que a minha" (se calhar já me estou a desviar...) não servem de nada. Nadinha!

Fomos todos Charlie na altura do massacre em Paris e defendemos a liberdade para se brincar com política, religião, futebol. Mas esperem lá, que treta é essa de dizerem que se eu sou da aldeola os meus pais se calhar são irmãos?! Epá, isso já não me podem dizer que eu faço birrinha. Não pode ser.

O desgraçado do José Cid agora é o homem mais odiado do país (calma Henrique Raposo, tu ainda tens lugar cativo no meu boneco de voodoo!). Disse que os transmontanos eram desdentados e tal. 
Pergunta para queijinho: Mas QUEM é que quer saber o que o José Cid pensa?! 
Ele até pode achar que as miúdas de 24 anos do Litoral Alentejano são todas vesgas e só têm 3 dedos em cada pé, ele nunca viu este belo espécime que vos escreve! Pf, coitado! Para além do mais é uma pessoa que não deve de todo ser levada a sério!! 

Não se indignem tanto nem apliquem tanto ódio nos comentários no facebook, caraças! Não vale a pena. Ele vai continuar famoso, rico e artista e nós vamos continuar lindos e sem precisar de capachinho.

Parecemos todos umas lindas bombas relógio vestidas e maquilhadas que à mínima difusão de ideias diferentes das nossas "Cá vai disto!!". 

É preciso acalmar um bocadinho as hormonas e relativizar o que sai das boquinhas santas desta gente. 
Nem digo que sejamos todos Charlie de novo, mas ignorem. Estão dias lindos lá fora, já apetece gelados e mariquices na praia. Aproveitem-se, hum?!

MariaDaniela

3 comentários:

  1. A situação do José Cid passou-me ao lado, ouvi apenas que andou a gozar com os transmontanos, que meio Portugal se revoltou e que até já lhe cancelaram concertos - e também não deve haver muito mais história, certo?

    Mas quanto ao humor, eu acho que o estilo e o conteúdo humurístico revelam os preconceitos e a inteligência de cada um. Repara no Ricardo Araújo Pereira e no Gregório Duvivier (do Porta dos Fundos), dois homens inteligentes, social e políticamente engajados, que usam o humor como forma de fazer pensar sobre temas relevantes.

    Quanto a sermos Charlie, eu sempre interpretei à luz da máxima "Posso não concordar com o que tens para dizer, mas defenderei o teu direito a dizê-lo". Não concordo com a linha editorial do Charlie Hebdo, acho-a xenófoba e ignorante, mas fui Charlie na defesa do direito à liberdade de expressão. Não se acaba a estupidez por decreto, ou por recurso ao medo. Mas, por outro lado, cada pessoa tem o direito de não concordar com o que outra tem a dizer. O caso do José Cid, como disse, passou-me ao lado, mas o comentário do Sinel de Cordes que referes é apologia do estupro.

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    1. Ops, humorístico e não humurístico :P

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    2. Saber utilizar o humor para abordar todo e qualquer tema é uma grande prova de inteligência. Assim como ter a lucidez (como tão bem referes) de defender o direito de expressão mesmo que o que venha a ser expressado não seja ipsis verbis daquilo que pensamos.
      O Sinel de Cortes é muito retorcido. Demais.

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