9 de agosto de 2016

O nosso ego é um "Perna Fina".

www.stack.com


Ontem à noite andei às voltas na cama, tal é a abafura dos dias que se passam por aqui, e cheguei a uma conclusão infeliz: quanto mais sólido o ego maior o medo da rejeição.

NOTA: se estão à espera de um texto motivacional em que eu escrevo "atirem-se, não têm nada a perder" de vinte maneiras diferentes, acabem a vossa meia de leite e dêem de frosques. Sabem que eu não ando há 67 anos nisto para espalhar a mariquice pelo mundo. Está dito.


Bom, temos o exemplo do João Libório, bom camionista, enfia o seu pesado onde eu não metia um carocha, bom moço, ajuda a mãe com os sacos das compras e é vê-lo na missa todo o santo domingo. Agora vê-lo meter-se com uma moça nova nunca vi. Mito rural. 
Temos-lhe enchido os ouvidos de tal maneira com baboseiras (que nem são mentira! Se há moço desenrascado na vida é o Libório!) que se alguém o rejeitar vai tudo pelo caninho abaixo. Como se ele descobrisse que afinal é adoptado. Mas pior.

E vocês, suas sonsas, são iguaizinhas! Farinha do mesmo saco. Vá, até eu, e não me olhem assim!!
É verdade. Ando há anos a tentar servir o melhor café pingado do sítio. Se alguém me disser que foi o pior que já bebeu custa-me muito mais hoje do que se fosse no início da minha carreira internacional de taberneira. Leio o jornal todas as manhãs e até já acabei a 4ª classe nas Novas Oportunidades. Ora se me vierem chamar ignorante hoje é capaz de levarem com o chispe desta porca nas trombas, enquanto que se calhar há dias em sorriria enquanto enfiava duas copadas de licor beirão na pança para doer menos. 
Mentalizem-se. Quanto melhor cultivam a vossa horta, regam com jeitinho, apanham a grama com uma sachola e tiram as lagartas da couve uma a uma mais vos dói que o Joaquim Francisco que, toda a gente sabe, é larápio vos vá patear a terra toda para roubar um pimentão verde para o refogado.

O nosso ego é aquele gajo que está sempre enfiado no ginásio mas que para ele nunca é dia de treinar pernas. Atentem que estou a falar para o ar, sei lá eu o que fazem as pessoas no ginásio. Nunca experienciei. Quem olha para ele vê-lo robusto, forte, preparado... Só que basta uma aragem mais rija e lá vai ele. 
E o nosso ego somos a gente. Estudamos, aprendemos a fazer arroz, lemos sem ser obrigadas, corremos sem ser à frente de ninguém, damos os nossos trocos a quem mais precisa e não é pelo olhar reprovador daquela beata que fala mal de toda a gente da vila menos da filha. A nossa confiança de sermos "uma pessoa que até vale a pena" vai ganhando sustentação. E nem vamos falar de vaidades! Aqui estou a alumiar as pessoas que percebem que valem a água que bebem, vamos deixar as últimas coca-colas do deserto de fora que essas são um peso morto.
Ora portanto, quando se vamos apercebendo que até somos dignas de viver uma vida tranquila caímos no erro de ficar embeiçadas pelo maior desgraçado da aldeia. E agora saber se ele acha gracinha a conjunto de curvas e contracurvas (estou a falar do cérebro!) suportado por um corpinho sádio? Pois, não sabemos! Sondamos os amigos, os conhecidos, o tio-avô e vamos à bruxa. Nada. Ninguém se desbronca e a nossa carteira ficou mais leve somente por sermos bestas. Aí é a altura do tudo ou nada! Do choque frontal. Ou sim ou sopas! E quem é que tem coragem? ... Poucas.
Quando nos levamos pouco a sério, mais tampa menos tampa, arranja-se tacho para cada uma delas. Quando já não estamos preparadas para ser metidas na beira do prato dói mais. E lá se vai o Perna Fina. 
Agora esperavam uma moral da estória? Ah, eu avisei-vos que não vos ia motivar para porra nenhuma. Se estiverem felizes e bem de amores como é que arranjam tempo para me virem beber um copo de águardente e trincar uns cajus? Isto está tudo pensado, minhas amigas, tudo pensado. 
Não é fácil perder o medo de ser rejeitada. Acho que quando se perde esse receio se perde também um bocadinho a noção e a coisa pode resvalar para o ridículo. Vá, não digam que vão daqui, se querem mesmo aventurar-se vão com pezinhos de lã e vistam o vosso melhor sorriso. Costuma resultar. A não ser que tenham a dentadura que um anjo que caiu do céu e aterrou de boca. Aí esqueçam. Ponham antes o vosso ar de Mona Lisa. Já não garanto que tenham sucesso mas olha... Quem dá o que tem... 

A taberneira cá do sítio.

Sem comentários:

Enviar um comentário