4 de novembro de 2016

Ser taberneira também é ser vítima (e eu sabia)!


Eu sabia que assim que servisse a primeira sande de coiratos que a coisa ia mudar. 

Esta grande (enormíssima) ação de altruismo (já começo forte nas palavras finas) traz sempre coladinha a si o olhar de esguelha de outras gentes. Quando uma pessoa se decide a dedicar-se a part time a um novo estabelecimento que não é aquele que nos paga o ordenado, existe sempre uma linguinha afiada pronta a esquartejar as carnes.

Quando abri o estabelecimento não contei a ninguém, não queria aqui velhos combatentes que me esfregassem na fronha tudo o que aqui dentro se desenvolve enquanto jogamos à bisca. Quis gente nova, vocês meus camionistas de longo curso mai ricos, que conhecessem os meus petiscos e que se fossem acostumando a este estilo esquisito de ir vivendo. Então, aqui nunca há diálogo para fazer número, como já podem ter reparado, que eu sei que vocês fizeram a quarta classe à primeira e se há esperteza no mundo, está dentro dessas caixinhas de osso que vocês aí têm.
O que é que acontece? Recomendei outras tabernas aos compinchas antigos e, burrinha todos os dias, não vislumbrei que o meu nome andava escarrapachado por lá. Asneira da grossa. Agora vivo com:
- Então e não gostavas que o Talho Amilcar te patrocinasse?
- Tens de vender o mesmo que as outras taberneiras senão nunca vais ser um restaurante de luxo!
... 
Estas reticências aqui em cima não são mais do que todos os sítios para onde eu costumo mandar este povinho. São sítios longínquos, normalmente onde o sol não brilha. 
Mas pronto, assim muito resumidamente, o que é triste é que estes cabranotes tenham mudado de opinião sobre mim só porque eu meti um toldo na garagem e agora vendo bagaço avulso. 
Os taberneiros são vítimas do seu próprio talento (é laaaaaa! belo ego que agora aqui se arrufou! porraaa que até eu fiquei pasmada com este momento). E o engraçado é que nem toda a gente quer viver disto. Ter um restaurante com guardanapos de pano (que paneleirice!) não é o derradeiro sonho do povo. E não têm de criticar quem se mantém no tasco, com poucos mas bons fregueses. Vocês sabem que eu gosto da qualidade duvidosa que isto criou. 
Gosto de poder ter mau feitio e que mesmo assim haja vivalma que me grame e ainda peça outra rodada para o pessoal do jogo das setas. Realmente, viver rodeada de pessoas com mau gosto até traz felicidade. O Gustavo Santos que saiba disto e os livrinhos de auto ajuda dele vão todos com o cacete.
Bom, o que é preciso d'zer é que eu aceito toooodas as boquinhas que vocês tenham a mandar. Ah, que o chispe já sabia um bocado a ranço. Ah que os pickles passaram da validade em fevereiro. Tudo muito lindo. Mas vocês! E críticas ao meu trabalho. Não vale a pena criticarem o meu rumo. Eu não quero ir a lado nenhum. Nem sequer dou carregado os baldes de toucinho e azeitonas que estão na despensa, por isso... Não me moam, eu estou bem aqui.

A taberneira cá do sítio.

2 comentários:

  1. As pessoas têm sempre que falar, é o que temos!

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    1. Ter de aceitar estas coisas arrepia-me até ao tutano... Mas paciência!

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