Olhas para trás e percebes que passaste por castigos mais ou menos merecidos, por discussões, por arcar com culpas que nem sempre eram tuas. Suportaste os teus irmãos, os teus primos ou os filhos dos vizinhos quando só te apetecia estar no teu mundinho. Não foste a mil festas de anos dos teus amigos, não tiveste aqueles ténis muita giros que toda a gente tinha, não tatuaste uma borboleta nas costas. Podes até ter passado por algumas dificuldades económicas mesmo que os teus pais tenham tentado por tudo que não sentisses a crise. Ouviste sermão por teres sido rude, por teres amuado, por teres respondido torto, por te levantares da mesa sem pedir licença. Doeu, não foi?
- Superaste a maldade da adolescência
Na escola, foste a mais magra, a mais alta, a estrangeira, a mais tímida, a mais faladora ou a combinação de 3 factores ao calhas. De certeza que a adolescência não foi um mar de rosas para ti. O teu corpo mudou e se não aconteceu no mesmo milésimo de segundo que o das outras raparigas já estavas "mesmo a pedir" um comentário parvo. Ou tiveste borbulhas, ou usaste óculos ou aparelho ou tudo de uma vez! Talvez tenhas trocado de grupo de amigos porque te sentiste desadequada, talvez te tenhas sentido sozinha mesmo rodeada por centenas de putos da tua idade. Possivelmente levaste muita pancada psicológica que te obrigou a sarar feridas e empinar o nariz.
- Passaste por um desgosto amoroso e deste a volta
Já tiveste as paixões mais assolapadas e quaaase de certeza que já passaste por estas três situações: gostaste de alguém que não gostava de ti, tiveste alguém a venerar-te sem resposta e namoraste com alguém que te fez o coração num frangalho. A mais dolorosa é sem dúvida a terceira, não é? O fim de uma relação afecta todos os aspectos da nossa vida, achamos que nunca mais gostaremos de alguém daquela forma tão intensa e que tudo à nossa volta relembra momentos passados. Voltar a erguer a cabeça demora e dói mas eventualmente acontece. Nada nos garante que não voltaremos a sofrer desta forma mas ficarmos agarradas a um coração estilhaçado não é vida...
- Lutas todos os dias contra o preconceito, os estereótipos e as imposições sociais
Já te cansaste de ver modelos de 43 kg nas revistas, já sabes de cor que as tuas quase-amigas acham que devias fazer californianas no cabelo, colocar unhas de gel enormes e usar saltos agulha a condizer. Tens decorado que os teus caracóis devem ser alisados todos os dias ou transformados em ondas glamorosas. Estás cansada de saber que se és brasileira és uma oportunista, se és do leste és uma vadia, se és italiana és ninfomaníaca, se és tuga és uma sonsa que só quer o dinheiro dos homens. Estás cansada disto tudo, tal como eu. Corres ao fim do dia, não porque é moda nem porque queres ser igual às das revistas mas porque queres ser saudável e activa. Compras cremes e maquilhagem porque adoras agradar àquela miúda gira que vês do outro lado do espelho.
- Hoje és economista, psicóloga, decoradora, motorista, cozinheira. E nem usas um super-fato!
Desdobras-te em mil tarefas e atividades todos os dias e nem percebes que és óptima na maioria delas. Sabes que não tens obrigação nenhuma disso?! Cozinhas para os amigos, decoras a tua casa e a dos teus pais, estacionas em lugares pequeninos, ouves os dramas do teu vizinho, da tua melhor amiga e do teu chefe. Controlas ao cêntimo o teu ordenado modesto e ainda consegues comprar coisas lindas todos os meses. És mãe (ou aspiras ser) e filha presente, és melhor amiga, és namorada ou esposa, és parte de um grupo de corrida, de zumba ou de croché.
És incrível e ainda nem deste por isso. Um dia terás de perceber o teu valor. Eu adorava que fosse hoje.
MariaDaniela









